“Vida Imposible”, de Eduardo Berti

Acabo de voltar do festival latinoamericano de literatura de Marseille, onde tive a oportunidade de encontrar muitos autores que tiveram a desfaçatez de nascer nos anos 70 e 80. Eu achava que estas décadas estavam reservadas com exclusividade para nossos filhos e filhos de amigos. Claro que eu já conhecia os novos autores brasileiros, outros descarados que também nasceram nestes anos. Mas em Marseille meu conhecimento foi homologado e levou o carimbo: “a fila anda”.
Curioso é que não havia ali um único escritor que ainda vivesse no Peru, Argentina, Chile ou México. Todos estão na França ou Espanha, o que só evidencia mais uma vez a nossa tradição continental de exportar talentos.
Lá tive o prazer de conhecer a literatura de Eduardo Berti.
Berti é argentino, viveu muitos anos na França, e atualmente mora em Barcelona, onde trabalha como roteirista, tradutor, jornalista cultural e sobretudo, escritor.
Sua literatura mescla uma boa dose do que há de melhor da tradição latinoamericana (Borges e Cortazar) e muita originalidade.
O resultado, os leitores brasileiros podem conferir nos breves contos que fazem parte do livro “Vida Imposible” (editado por Emecé España y Emecé Argentina en 2002) que traduzi especialmente para o site Pnetliteratura, e que coloco aqui também para que meus leitores desfrutem.

Vida dupla

Quando soube que meu pai tinha levado, nos seus últimos trinta anos, uma vida dupla, sucumbi à curiosidade e averiguei o nome de sua outra mulher e o endereço do seu outro lar. Toquei a campainha com uma desculpa qualquer – uma inspeção da companhia de seguros, ou algo assim – e uma mulher alta e equina me convidou a entrar. Na hora não pude acreditar no que via: o interior daquela casa era uma réplica perfeita daquela que havíamos compartilhado meu pai, minha mãe e eu; os mesmos móveis, os mesmos sofás, com o mesmo estofamento, distribuídos exatamente da mesma forma, e até os mesmos quadros, os mesmos pratos de porcelana e as mesmas esculturas de gesso.

De volta à casa, aquela noite, me dediquei com malévolo prazer a desordenar os móveis e a revolver as coisas nas estantes. Minha mãe acompanhava perplexa meus movimentos, mas eu não lhe disse nada da minha visita, e jantamos em silêncio.

De repente, lembrei me da vez em que, ainda menino, quebrei o jarro chinês que flanqueava o divã. A zanga do meu pai, ao saber do acidente, me pareceu, naquele momento, desproporcional. Agora, podia entendê-lo. Podia inclusive imaginá-lo no dia seguinte, destruindo, propositalmente, o jarro igual, só para conservar a simetria com o seu outro lar.

Por aproximação
Antes de cruzar com algum conhecido que não vejo há anos, nos dias anteriores, começo a encontrá-lo por aproximação. Isto significa que dois dias antes encontro por acaso com um estranho que me lembra vagamente este conhecido, e horas mais tarde, ou um dia depois, volto a cruzar com outro estrannho ainda mais parecido com este amigo que anuncia assim a sua reaparição. Às vezes, a aproximação é breve: uma ou duas caras semelhantes e finalmente o sujeito original. Mas outras vezes, a corrente se prolonga a tal ponto que os elos finais, me refiro aos últimos transeuntes desconhecidos, na prática resultam quase idênticos àquele amigo querido. Várias vezes cheguei a cumprimentar um desses sósias. Outras, entendi na verdade que de fato se trata de quem eu penso, só que já me esquecera, ou fingia não me reconhecer.

Paternidade
Todo homem quer voltar a parir seus pais. Da tentativa falha nascem os filhos.

Vou publicar mais alguns nas próximas semanas. Aguardem.

Sobre Patricia Melo

Patricia Melo, escritora e dramaturga Ver todos os posts de Patricia Melo

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